Desmatamento aquece a Amazônia e seca o clima: temperatura sobe até 3 °C na estação seca

Estudo com dados de satélite revela menos chuvas, menos dias chuvosos e maior risco de degradação florestal em áreas com perda de vegetação.
Desmatamento extremo eleva em até 3 °C a temperatura da Amazônia na estação seca e reduz as chuvas em 25%, acelerando o risco de colapso climático regional. (Fotos Bruno Cecim - Ag.Pará)

O avanço do desmatamento na Amazônia já provoca alterações profundas no clima regional, aproximando áreas antes de floresta úmida de condições típicas de zonas de transição para a savana.

Regiões com cobertura florestal inferior a 60% apresentam aumento médio de até 3 °C na temperatura da superfície durante a estação seca, além de queda expressiva na evapotranspiração e nas chuvas.

As conclusões fazem parte de um estudo baseado em dados de satélite, publicado no fim de novembro na revista Communications Earth & Environment. A pesquisa mostra que a perda de vegetação reduz a capacidade da floresta de regular o clima, resultando em menos precipitação, menos dias chuvosos e maior aquecimento da superfície.

Segundo os pesquisadores, áreas altamente desmatadas registram evapotranspiração 12% menor e volume de chuvas até 25% inferior em comparação com regiões que mantêm cobertura florestal acima de 80%.

Também foram observados, em média, 11 dias a menos de chuva ao longo do ano, evidenciando que o impacto do desmatamento afeta não apenas a quantidade, mas também a distribuição das precipitações.

Esse cenário mais quente e seco intensifica a degradação da floresta, aumenta a mortalidade de árvores e eleva a suscetibilidade a incêndios florestais. O processo compromete a permanência de espécies típicas da floresta úmida e favorece a expansão de espécies oportunistas e gramíneas exóticas, com prejuízos diretos à biodiversidade amazônica.

Para os cientistas, os resultados reforçam a urgência de conter o desmatamento e acelerar a restauração de áreas degradadas, como estratégia essencial para preservar a resiliência climática da Amazônia e garantir a sustentabilidade de atividades econômicas dependentes do clima, como a agricultura.

“O estudo mostra que as florestas tropicais exercem um papel decisivo no equilíbrio climático, com reflexos diretos no bem-estar da população e na economia. O debate precisa ir além da pauta ambiental e considerar um projeto de desenvolvimento nacional integrado”, afirma o pesquisador Luiz Aragão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Aragão, que integra a coordenação do Programa Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, participou de painéis da COP30, em Belém, onde discutiu emissões de gases de efeito estufa e os impactos do aquecimento global.

O primeiro autor do artigo, o pesquisador Marcus Silveira, também do Inpe, destaca que os dados reforçam a importância científica de manter pelo menos 80% de cobertura florestal nas propriedades rurais da Amazônia, conforme estabelece o Código Florestal.

A legislação determina a preservação de 80% da vegetação nativa em áreas de floresta na Amazônia Legal, 35% no Cerrado e 20% em campos gerais e no restante do país.

“As áreas desmatadas passam a enfrentar condições mais quentes e secas, o que afeta diretamente a produção agrícola. Estudos recentes da FAO mostram que as florestas são aliadas da agroindústria, ao garantir estabilidade climática e maior produtividade”, explica Silveira, que colaborou com o relatório Climate and ecosystem service benefits of forests and trees for agriculture.

Novos usos da terra

A Amazônia brasileira, que ocupa quase metade do território nacional, perdeu 13% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2024 — cerca de 520 mil km², área maior que a da Espanha. Os dados são do MapBiomas, a partir da análise de imagens de satélite.

Nesse período, as pastagens saltaram de 123 mil km² para 561 mil km², enquanto a área agrícola cresceu de 1,8 mil km² para 79 mil km². A mineração também avançou, alcançando 4.440 km² em 2024.

Apesar da desaceleração recente do desmatamento, os pesquisadores alertam que a devastação segue em nível preocupante. Somente em 2024, mais de 6,3 mil km² de vegetação nativa foram suprimidos na Amazônia Legal, segundo o Prodes, do Inpe.

“Reduzir o desmatamento é essencial, mas também precisamos avançar rapidamente na substituição dos combustíveis fósseis para conter um aquecimento global que já ultrapassou limites críticos”, afirma Aragão.

O ano de 2024 foi o mais quente já registrado e o primeiro a ultrapassar 1,5 °C de aumento na temperatura média global em relação aos níveis pré-industriais.

Dados do Global Carbon Budget indicam que, em 2025, as emissões de CO₂ de combustíveis fósseis devem crescer 1,1%, alcançando o recorde de 38,1 bilhões de toneladas.

“Se conseguirmos restaurar a estrutura florestal, será possível recuperar serviços ecossistêmicos essenciais, como a regulação da temperatura, a ciclagem da água e o estoque de carbono, garantindo maior segurança hídrica, alimentar e econômica para o país”, conclui Aragão.

Metodologia

A pesquisa, desenvolvida no doutorado de Silveira, dividiu a Amazônia em grades de aproximadamente 55 x 55 km, agrupadas conforme o nível de desmatamento acumulado: até 40%, de 40% a 60% e de 60% a 80% de cobertura florestal remanescente. Áreas vizinhas com mais de 80% de floresta serviram como referência climática.

Foram analisadas 11 variáveis climáticas, como temperatura da superfície, evapotranspiração, volume de chuvas anual e sazonal, além do número de dias chuvosos. Os impactos mais severos ocorreram nas regiões com até 40% de floresta remanescente, onde a temperatura chegou a ser até 4 °C maior na estação seca.

O estudo contou com apoio da Fapesp e se soma a outras pesquisas recentes que apontam o desmatamento como principal fator da redução das chuvas e do aumento das temperaturas na Amazônia, reforçando o alerta sobre os riscos de um colapso climático regional.


(Da Redação do Fato Regional, com informações da Agência Fapesp)

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