A mineração é um setor produtivo que atua com recursos não-renováveis. E devido ao uso pouco conceituado da palavra “sustentabilidade”, muitos setores da sociedade se questionam se mineração sustentável é algo possível. Durante dois dias, em Belém, cidade sede da COP30 neste ano, um congresso técnico realizado pelo Sindicato das Indústrias Minerais do Estado do Pará (Simineral) reuniu mineradoras e poder público para buscar essa resposta.
Com o tema “Mineração Sustentável – ESG global na prática local”, esse foi o primeiro congresso técnico realizado pelo Simineral, pensando nas empresas que atuam na realidade da Amazônia. A proposta foi compreender os principais padrões internacionais de ESG – ambiental, social e governança, na sigla em inglês – e aplicabilidade prática no Brasil. E ainda: o papel das mineradoras na busca pelas melhores práticas para o setor mineral.
Veja como foi o evento e algumas das análises, no Instagram do Fato Regional (@fatoregional):
Realizado nos dias 1 e 2 de abril, o congresso teve várias horas de debates com representantes das maiores empresas de mineração do Brasil, pesquisadores e analistas do setor mineral. O Fato Regional foi um dos poucos veículos de imprensa do Pará a serem convidados para o evento, que teve pautas muito técnicas e francas sobre economia, políticas públicas, desafios do setor, mercado, percepção social e práticas empresariais.
O evento teve patrocínio da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), Vale, Hydro, MRN e Alcoa, com apoio institucional do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Entre os convidados estiveram pesquisadores, analistas técnicos e representantes de diversas outras mineradoras, como a EroBrasil Tucumã.

Mineração, COP30 e a pauta da transição energética
Para Emerson Rocha, diretor executivo do Simineral, o ano da COP30 em Belém é um dos melhores momentos para se falar sobre mineração, meio ambiente, sociedade e rumos do setor empresarial – pilares do ESG. Por essa razão, o sindicato adianta que outros eventos ainda deverão ser realizados como preparação para a conferência global sobre mudanças climáticas.
“Reunimos especialistas globais e regionais, tirando o ESG do conceito e colocando na prática sobre como aplicarmos e como alcançarmos uma mineração cada vez mais focada em inovação, sustentabilidade e responsabilidade socioambiental. Mineração sustentável existe sim, mas com parceria de todos: setor mineral, governo e comunidades. O Simineral está comprometido em construir esse ambiente possível”, diz Emerson.
Um dos primeiros painéis do congresso trazia uma provocação diante das mudanças globais, como o novo governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, e crescentes questionamentos sociais e científicos: o ESG acabou? “Não acabou e nem vai acabar, pois está ligado à natureza das atividades da mineração. O que buscamos é o progresso das empresas, das comunidades e do ambiente desde a elaboração dos estudos de impacto ambiental e processos de licenciamento”, conclui o diretor executivo do Simineral.

Ainda sobre COP30, Rinaldo Mancin, diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), observa que uma das principais pautas da COP30 deve ser a transição energética e isso perpassa pela atividade do setor mineral. “Se falarmos sobre energia fotovoltaica, baterias, estruturas eólicas… tudo tem minério. E devemos falar sobre minério de origem legal e descarbonização da economia”, avalia.
“Minerais são recursos naturais não renováveis. Então cabe a nós maximizar a produção, qualificar território, criar estrutura, contribuir para uma agenda climática, agregar valor, gerar renda e causar menos impacto. Discussões como esse evento são para encontrar os caminhos de uma mineração mais sustentável que é sim possível”, completa Mancin.

Mineração para fazer a diferença e ESG sem demagogia ou publicidade
“Me questionam como uma mineradora pode ser empresa sustentável. Nosso negócio é descarbonização. Não e frase de efeito. Quando olho para minerais críticos e que nosso setor é responsável por 8% das emissões de CO2 do mundo, cabe a nós falar de descarbonização, isso faz parte do negócio. As mudanças climáticas estão aí. Eu quero ser parte da solução”, comentou Camilla Lott, diretora de Sustentabilidade Corporativa da Vale.
Rafael Benke, CEO da ProactivaResults, pontua que a história é feita de ciclos de inovação e mudanças de paradigmas. Atualmente, o mundo vive numa década de mudanças radicais muito rápidas, sobretudo com transição energética, novas tecnologia, inteligência artificial e um ecossistema de desinformação. “Há um movimento global de estabelecer metas de descarbonização. É inevitável ou não teremos planeta”, acrescenta.

“ESG não se trata mais de um escritório dentro das empresas para fazer checklist dos relatórios ambientais. É diferencial de competitividade de negócios. Estamos vendendo mais do que apenas produtos; são valores associados e essa compreensão é o desafio para as indústrias da mineração. Hoje não se investe mais em atividades econômicas predatórias. A mineração pode ser vanguarda ao pensar par daqui 40 ou 50 anos, construindo esse diferencial ,buscando lucratividade e bem estar das comunidades”, argumentou Eugênio Pantoja, gerente sênior de Performance Social da Norsk Hydro
Benke reforça que, no começo, o ESG atraiu muitas corporações, mas uma parcela apenas se focou em usar como ferramenta de marketing e publicidade. “Os financiamentos e investimentos hoje estão pautados pelos ratings de ESG. Precisamos depurar essa espuma de quem adotou sem compromisso real. Toda a conversa começa no licenciamento. Hoje, temos pelo menos 400 ecolabels relevantes, um ecossistema caótico de certificações, além de mais de 868 políticas estruturantes e diretrizes. Vejo que estamos caminhando para uma convergência”, analisa.

Diálogo entre mineradoras, poder público e sociedade por um legado positivo da mineração
O secretário adjunto de Gestão e Regularidade Ambiental da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), Rodolpho Zahluth, destacou que eventos como o congresso técnico do Simineral são oportunidades únicas de fortalecer o diálogo entre poder público, sociedade e as empresas de mineração. Ele apontou alguns dos principais desafios entre conceitos e práticas do setor e caminhos para melhorias.
“O fluxo de informação é algo que precisa ser alinhado. Vemos muitas práticas, como as de ESG, que são regulações de cunho privado e de mercado, que são interessantes para os processos de licenciamento e que nem sempre vemos. Por exemplo, medidas de descarbonização e transformação de matrizes energéticas são coisas de várias empresas e que nem sempre temos total conhecimento, mas deveriam estar ligado aos processos de licenciamento. Nós temos sido cobrados por dados e informações como essas e nem sempre temos”, comenta Rodolpho.

Na análise do secretário adjunto da Semas, o diálogo entre as mineradoras e o poder público tem avançado, mas pode e deve melhorar. E quando se fala em ESG e papel das empresas que atuam com atividades de impacto ambiental e social, explorando recursos finitos, as ações precisam ser reunidas num inventário mais amplo e acessível para pesquisa e consulta. E de forma prática, adotar medidas que tragam soluções socioambientais mais permanentes.
“A mineração não pode seguir apenas com medidas paliativas para ações do tempo finito das mineradoras. Por exemplo: por que só fornecer garrafões de água para uma comunidade, durante 10 anos, e não criar um sistema de captação, abastecimento e tratamento de água robusto e permanente? O legado desse setor precisa ser mais concreto, tanto na compensação ambiental, quanto na social e ter medidas mais concretas”, conclui o secretário adjunto.
Ana Carolina Alves, diretora de Relações Institucionais da Vale no Pará e Maranhão, observa que o diálogo entre todos os entes que fazem parte do setor mineral e das partes interessadas pela atividade precisam convergir para a busca da mineração sustentável. Lembrando que a sustentabilidade é um tripé de conceitos: meio ambiente, sociedade e economia. “Existe uma quantidade enorme e caótica de padrões e certificações. Ninguém vai ser o melhor em todas e nosso desafio é encontrar práticas que gerem valor dentro do tripé da sustentabilidade”.

diretora de Relações Institucionais da Vale no Pará e Maranhão (Foto: LED)
“Precisamos dialogar e entender quais são esses padrões globais de ESG que tanto se fala e como isso conversa com o licenciamento ambiental e que caminhos estamos trilhando. Quando pensamos em práticas do ESG para além do tripé da sustentabilidade e que compromissos, que medidas de transparência as empresas estão assumindo para além das obrigações legais, isso é um caminho para se falar em mineração sustentável”, ressalta Ana Carolina.
O pilar social do ESG, evidencia Ana Carolina, vem emergindo como um novo foco, após anos de trabalho em reflorestamento e preservação da biodiversidade. Até o termo se transformou e agora é sóciobiodiversidade, pois não é mais possível se falar em meio ambiente separado das pessoas que vivem nos ambientes alvos de proteção, preservação ou recuperação.
“Estamos num processo de evolução da sociedade, saindo um pouco do olhar apenas sobre a floresta e pensando nas pessoas que vivem nela ou dependem dela. Comunidades que têm mais acesso à informação, são cada vez mais conscientes que fiscalizam e cobram. Pessoas que um dia podem ser nossa mão de obra, pois conhecem suas comunidades. Precisamos desenvolvê-las como um dos nossos compromissos. Por isso a Vale tem uma meta de tirar 500 mil pessoas da linha da pobreza e mais de 50 mil estão no Pará”, conclui Ana.
(VICTOR FURTADO, da Redação do Fato Regional)
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