‘Policiais Militares não subtraíram o gado. Animais foram entregues a fiel depositário’, afirma delegado sobre caso em São Félix do Xingu

Delegado Raphael Machado do Alto Xingu afirma que animais foram apreendidos após denúncia de possível venda irregular e entregues ao suposto proprietário; três inquéritos investigam disputa pela posse do rebanho
Delegado Raphael Machado, superintendente regional da Polícia Civil do Alto Xingu - Foto: Fato Regional

A Polícia Civil esclareceu as circunstâncias envolvendo a apreensão de centenas de cabeças de gado em uma propriedade rural de São Félix do Xingu, no sul do Pará, e negou que policiais militares tenham participado de qualquer furto de animais. O caso envolve uma disputa pela propriedade de um grande rebanho e denúncias que chegaram às autoridades ao longo de 2025 e 2026.

Em entrevista, o superintendente da 14ª Superintendência Regional da Polícia Civil do Alto Xingu, delegado Raphael Machado, explicou que a situação começou a partir de um conflito envolvendo a posse de grande quantidade de gado mantida em uma propriedade rural do município.

Segundo o delegado, a área havia sido arrendada a uma terceira pessoa, que colocou os animais no local. Posteriormente, surgiram conflitos financeiros entre o arrendatário e o proprietário da fazenda. O dono da área chegou a recorrer à Justiça para tentar obter autorização para vender o rebanho, mas o pedido foi negado.

Ainda conforme o delegado, mesmo sem autorização judicial, começaram a ocorrer retiradas e vendas dos animais para frigoríficos da região.

Em 2025, uma equipe da Divisão de Operações Especiais (DIOE), da Polícia Civil, chegou a atuar no caso. Três homens armados foram presos enquanto transportavam cabeças de gado, que também foram apreendidas durante a operação.

Polícia Militar foi acionada por suposto proprietário

No início deste ano, o homem que afirmava ser dono dos animais procurou a Polícia Militar para denunciar que o gado estaria sendo retirado da propriedade e vendido. De acordo com o delegado, naquele momento, nove carretas carregadas com animais já teriam deixado a fazenda com destino a um frigorífico.

Após a denúncia, policiais militares foram até o local e abordaram pessoas que estavam transportando os animais. O gado foi apreendido e entregue ao homem que alegava ser o proprietário, na condição de fiel depositário, enquanto a disputa sobre a propriedade permanece sob investigação.

Dias depois, a Polícia Militar também foi chamada para atender uma ocorrência de tiroteio na mesma região. Um homem foi conduzido e preso em flagrante.

Nova apreensão envolveu 429 cabeças de gado

O episódio que deu origem à denúncia envolvendo policiais militares ocorreu posteriormente, segundo a Polícia Civil.

O mesmo denunciante informou novamente às autoridades que animais que seriam de sua propriedade estavam sendo retirados para venda. Desta vez, os animais teriam sido levados de uma fazenda vizinha à propriedade onde o rebanho estava inicialmente.

Durante a abordagem, um homem foi encontrado transportando 19 cabeças de gado. Os policiais identificaram que quatro animais apresentavam a marca pertencente ao homem que havia feito a denúncia.

O suspeito teria indicado aos policiais o local onde os animais haviam sido embarcados. Na propriedade indicada, foram encontradas outras 429 cabeças de gado com a mesma marca.

Os animais foram apreendidos e, novamente, entregues ao homem que reivindicava a propriedade do rebanho, como fiel depositário.

Polícia Civil diz que há disputa sobre propriedade

O delegado Raphael Machado ressaltou que ainda existe uma disputa sobre quem é, de fato, o proprietário dos animais e que essa questão deverá ser comprovada por meio dos procedimentos legais.

A Polícia Civil afirma, porém, que não houve retirada de gado pelos policiais militares para benefício próprio ou participação deles em qualquer furto de animais.

“Jamais houve qualquer subtração de semoventes por parte da Polícia Militar”, afirmou o delegado durante a entrevista.

Segundo ele, pelo menos três inquéritos policiais foram instaurados para apurar diferentes fatos relacionados à disputa pelo rebanho.

GTA teria apresentado origem diferente dos animais

Ainda de acordo com o delegado, durante uma das apreensões foi identificada uma possível irregularidade na documentação usada para transportar os animais.

A Guia de Trânsito Animal (GTA) apresentada indicava que o gado teria como origem uma propriedade rural localizada em Xinguara. No entanto, os animais estavam em São Félix do Xingu.

A Polícia Civil informou que essa divergência também integra o conjunto de informações analisadas nas investigações.

O caso segue em apuração e a definição sobre a propriedade dos animais deverá ser estabelecida a partir dos documentos, depoimentos e demais provas reunidas nos procedimentos policiais e judiciais.

Em nota enviada ao Portal Fato Regional, a defesa do Major Júlio informa que “ele ainda não tomou conhecimento formal e integral do teor das denúncias e dos elementos da investigação policial, a qual tramita sob sigilo”. Além disso, o documento reforça que “todas as providências adotadas pelo Major decorreram do regular exercício de suas atribuições funcionais, foram amparadas pela legislação e motivadas por solicitações da população, devidamente formalizadas por meio dos registros competentes”.

Segundo a defesa, “a exposição indevida de informações submetidas a sigilo pode caracterizar violação à intimidade, à honra, à presunção de inocência e ao próprio segredo de justiça”.

Por fim, o documento destaca que “o acesso integral aos elementos da investigação, serão prestados os esclarecimentos cabíveis, com a demonstração da legalidade e da regularidade das providências adotadas pelo Major Júlio”.

 


Da redação do Fato Regional

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