Série da Netflix sobre acidente com césio-137, em Goiânia, relembra tensão no Pará, que quase recebeu 6 mil toneladas de resíduos radioativos

A crise do césio-137 em Goiânia gerou 6 mil toneladas de resíduos radioativos. Quando o então governador do Pará, Hélio Gueiros, soube da intenção de transformar o estado no destino do lixo contaminado por radiação, publicou uma carta aberta ao presidente José Sarney, intitulada 'O Pará não é a lata de lixo do Brasil'. Os detalhes explicados pelo historiador Diego Pereira, no entanto, não estão na série da Netflix.
O ferro-velho que foi um dos maiores focos de contaminação por césio-137 em Goiânia, que foi onde a cápsula do aparelho de raio-x foi aberta (Foto: CNEN / Arquivo)

A série “Emergência Radioativa” estreou na Netflix no dia 18 de março, dramatizando a história do acidente com césio-137 em Goiânia (GO), ocorrido em setembro de 1987. O caso é considerado o pior incidente nuclear fora de usinas da história do planeta, levando à morte de 4 pessoas e contaminação de centenas. Os números, quase 40 anos depois, ainda são contestados por possível subnotificação. Os dois últimos episódios da série retratam um momento de tensão no Pará: quando o estado foi escolhido como destinação dos resíduos contaminados por radiação de Goiás. Em entrevista ao Fato Regional, o historiador Diego Pereira, professor doutor da Universidade do Estado do Pará (Uepa), relembra como a crise federativa se desenrolou.

Veja o trailer da série, que já está disponível, em 5 episódios, na Netflix:

Diego explica que, à época do acidente com césio-137 em Goiânia, o Brasil estava recém-saído da ditadura militar. O então presidente era José Sarney. Fazia pouco mais de um ano que o mundo  havia testemunhado o acidente na usina nuclear de Chernobyl, mostrando o quão assustadora a radiação podia ser. E ainda era um cenário dos últimos anos da Guerra Fria e da corrida nuclear. O Brasil montou uma base militar na região da Serra do Cachimbo, na divisa entre o Pará e o Mato Grosso, que havia sido projetada para testes da “bomba atômica brasileira”. Essa informação, no entanto, só foi revelada em 2005, quando Sarney explicou a ideia ao repórter Geneton Moraes, do Fantástico.

A Base Aérea do Cachimbo, como ficou conhecida a instalação, segue funcionado sob a gestão da Força Aérea Brasileira até os dias atuais. Diante de todo o lixo radioativo gerado em Goiânia, o local foi apontado como mais adequado para abrigar os resíduos. Os paraenses não concordaram, sobretudo pelos cursos de água e minérios da região. Eventualmente, Sarney reconheceu que a ideia de mandar os resíduos ao Pará seria pano de fundo para os testes nucleares, mas o Governo Federal abandonou a ideia iniciada no regime militar para evitar incidentes diplomáticos.

Toneis com as 6 mil toneladas de lixo radioativo do incidente com césio-137, um dos maiores acidentes nucleares fora de usinas da história do mundo (Foto: CNEN / Arquivo)

Como foi o acidente com césio-137 em Goiânia

Para quem não recorda, o acidente com césio-137 ocorreu quando dois catadores encontraram a cápsula de uma máquina de raio-x, num hospital de radioterapia que foi abandonado. Sem saber o que era e pelo peso do equipamento de chumbo, abriram uma parte da proteção contra a radiação do césio-137 em pó. Resíduos radioativos começaram a cair ali mesmo. Sem conseguir separar mais metais, os catadores levaram o césio para um ferro-velho e oficina, onde mais uma parte do equipamento foi aberta e começou a vazar mais pó radioativo.

O dono da oficina comprou a cápsula e levou para casa, já que o equipamento emitia um brilho curioso. Ele terminou de abrir dentro da residência. Sem imaginar o risco, várias pessoas na casa ficaram deslumbradas com o pó brilhante que emitia uma forte luz mesmo no escuro. Eles brincaram com o pó, espalharam ainda mais e uma criança chegou a comer (ela não sobreviveu). Os efeitos começaram a aparecer com tonturas, dor de cabeça, enjoo, vômitos, coceira persistente e feridas que abriam como se fossem queimaduras.

A esposa do dono da oficina desconfiou que a cápsula e o pó fossem a causa. Resolveu levar à Vigilância Sanitária de Goiânia, de ônibus (contaminando o ônibus e todos os passageiros), e o elemento ficou no prédio por mais de um dia até que os bombeiros fossem retirar e uma análise apontou se tratar de um equipamento radioativo, emitindo radiação massiva e contaminando tudo ao redor. Após se espalhar por várias parte de Goiânia, houve contaminação de ruas inteiras, incontáveis pessoas e caiu nos poços de algumas casas.

O historiador Diego Pereira, professor doutor da Uepa e Seduc, conta detalhes que estão além da história que a série da Netflix conta sobre o incidente com césio-137 (Foto: Acervo Pessoal)

Tensão entre os governadores do Pará e de Goiás, o povo paraense e a Comissão Nacional de Energia Nuclear

Após todo o período da crise do césio-137 em Goiânia, foram geradas cerca de 6 mil toneladas de resíduos radioativos. Quando o então governador do Pará, Hélio Gueiros, soube da intenção de transformar o estado no sarcófago do lixo contaminado por radiação, publicou uma carta aberta a Sarney, intitulada “O Pará não é a lata de lixo do Brasil”. O Círio de 1987 foi marcado por protestos, pedindo a proteção de Nossa Senhora de Nazaré contra o lixo radioativo de Goiás. Indígenas Kayapó também se manifestaram contrários, fazendo uma passeata a Brasília.

“Os resíduos incluíam a cápsula original onde estava o césio-137, que gerou o incidente, além de roupas, entulhos de construção e diversos elementos contaminados. A ideia de Sarney era que a destinação fosse a Serra do Cachimbo. À época se dizia que a escolha se baseava em critérios técnicos, como baixa densidade populacional e baixa atividade sísmica. E a base aérea facilitaria essa logística. O então governador do Pará Hélio Gueiros reagiu a essa decisão pela falta de consulta prévia. O governo questionava a injustiça ambiental, já que o estado e a Amazônia sofriam danos por mineradoras, garimpo e madeireiras e então havia um risco ainda maior com lixo radioativo”, observa Diego Pereira.

O então governador do Pará, Hélio Gueiros, autor da carta aberta ao presidente José Sarney ‘O Pará não é a lata de lixo do Brasil’, que comprou briga com o Governo de Goiás e com a CNEN (Foto: Redes Sociais)

Diego aponta que foi instalado um dos momentos de maior tensão federativa da história recente do Brasil. Os governos dos dois estados entraram em conflito, com troca de ofensas entre Hélio Gueiros e o governador de Goiás à época, Henrique Santillo. O governador do Pará também comprou briga com a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que foi obrigada pelo Governo Federal a tentar convencê-lo de receber os resíduos. Enquanto a decisão final não chegava, uma frota de caminhões saiu de Goiânia com destino à Base Aérea do Cachimbo, via BR-163 (Santarém-Cuiabá).

“Houve muita reação das comunidade indígenas, com cerca de 2,5 mil indígenas, liderados pelos caciques Raoni e Megaron, ocupando a Praça dos Três Poderes, em Brasília, reivindicando a proteção das terras e proteção dos rios contra o ‘terror azul de Goiás’, mostrando como isso afetou diversos setores da população do Pará”, comenta o historiador.

A notícia gerou ainda mais revolta. Um grupo de garimpeiros, produtores rurais, empresários e civis de de Itaituba e região se reuniu, todos armados, para interceptar os caminhões na estrada e impedir a chegada do lixo radioativo. Hélio Gueiros também chegou a deixar a Polícia Militar de prontidão para bloquear a estrada, se necessário. Sarney então mandou os caminhões retornarem. A Constituição Federal já estava sendo construída e o Congresso Nacional aprovou uma lei que obrigava que cada estado fosse responsável pela guarda de resíduos radioativos gerados. O projeto foi proposto pelo Governo Federal.

Até que Abadia de Goiás fosse definida como o local os resíduos contaminados por césio-137 fosse escolhida, houve muita tensão entre os governos estaduais, numa crise agravada por José Sarney, que insistia em mandar os resíduos ao Pará, na Base Aérea de Serra do Cachimbo (Foto: CNEN / Arquivo)

Desfecho do incidente com césio-137 e a série da Netflix ‘Emergência Radioativa’

Com isso, restou ao Governo de Goiás abandonar a ideia e aceitar um estudo da CNEN, que apontou uma área em Abadia de Goiás, na Região Metropolitana de Goiânia, como local para abrigar os resíduos. As latas e contêineres foram cobertos chumbo e concreto, formando um pequeno morro artificial. A Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa) aprovou uma lei que impedia que lixo contaminado de césio-137 fossem depositados no estado.

“Foi um impasse político, econômico, social e ambiental que durou cerca de um mês O desfecho desse processo de resistência foi que Sarney recuou e transferiu o ‘abacaxi’, como a imprensa dizia à época, para o Congresso Nacional decidir a solução. A vigilância no local em Abadia de Goiás tem validade de 300 anos. Gerou uma tensão, mas também uma solução”, concluiu o historiador Diego.

O sarcófago onde foram depositadas as 6 mil toneladas de lixo radioativo, em Abadia de Goiás, vai demandar 300 anos de vigilância e fiscalizações constantes (Foto: July Branco / Ministério da Saúde)

Em 1990, o ex-presidente Fernando Collor foi à base na Serra do Cachimbo para a desativação completa das instalações do programa nuclear paralelo. Atualmente, a área militar abriga o Campo de Provas Brigadeiro Veloso (CBPV). Periodicamente, autoridades ambientais do Governo Federal e de Goiás voltam ao parque onde ficaram os resíduos do acidente com césio-137, em Abadia de Goiás, para vistoria e ter certeza de que aquele material perigoso está intacto e sem oferecer mais riscos à população.

A série da Netflix, aos que ficaram interessados em observar outros pontos de vista da história, está disponível, ainda que cercada de polêmicas, como o fato de a série ter mudado os nomes das vítimas e personagens originais, ter gravado tudo fora de Goiânia e não ter atores goianos participando de um dos capítulos mais impactantes da história do Brasil, sobretudo do estado de Goiás. A obra segue como uma das mais vistas da plataforma.


(Reportagem especial de Victor Furtado, da Redação do Fato Regional)

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